Há filmes que contam uma história. E há filmes que alteram a forma como sentimos o tempo.
Cemitério do Esplendor (Cemetery of Splendour), dirigido por Apichatpong Weerasethakul e lançado em 2015, acompanha um grupo de soldados acometidos por uma misteriosa doença do sono, tratados numa clínica provisória instalada em uma antiga escola. No centro da narrativa está Jenjira, voluntária que passa a cuidar de um desses soldados, Itt, num espaço em que sonho, memória, espiritualidade e realidade se misturam o tempo todo. O filme, exibido em Cannes e amplamente reconhecido pela crítica, tem 122 minutos e é frequentemente associado ao chamado slow cinema por sua forma paciente, hipnótica e contemplativa.
Mas dizer isso ainda é pouco. Porque Cemitério do Esplendor não apenas fala de sono: ele produz no espectador uma experiência de desaceleração. É um filme que parece diminuir a velocidade interna de quem assiste.
Um filme que muda o ritmo da percepção
Em boa parte do cinema contemporâneo, o tempo é subordinado ao acontecimento. As imagens correm para entregar informação, conflito, resolução. Em Cemitério do Esplendor, ocorre o contrário: a ação é esvaziada de urgência para que o tempo possa ser sentido.
Os planos são longos. Os silêncios não são preenchidos apressadamente. As conversas parecem acontecer sem o peso da eficiência. Os corpos deitados, a luz suave, a repetição calma dos gestos e a suspensão de explicações objetivas criam uma atmosfera em que o espectador já não assiste apenas a uma trama — ele entra num estado.
Talvez venha daí a sensação de paz que tantas pessoas relatam ao ver o filme. Não porque ele seja simples ou ingênuo, mas porque ele interrompe, por um momento, a lógica da pressa. O tempo deixa de ser uma linha de tarefas e volta a ser presença.
O hospital como símbolo: cura, suspensão e travessia
No nível mais imediato, o hospital é o lugar do cuidado. Mas em Apichatpong os espaços raramente permanecem literais. O hospital de Cemitério do Esplendor é também uma zona intermediária: entre vida e sonho, entre consciência e inconsciência, entre corpo e espírito.
Os soldados dormem, mas esse sono não parece uma simples ausência. Algo age neles. Algo os atravessa. Como se estivessem capturados por forças subterrâneas — históricas, psíquicas, espirituais ou políticas.
Por isso o hospital não é apenas hospital. Ele funciona como templo, como espaço de passagem, como imagem de um mundo em que o visível é apenas a camada mais superficial da realidade.
A antiga escola: formação, memória e adoecimento
Há, porém, um detalhe decisivo: o hospital foi instalado numa antiga escola. E isso amplia muito o campo simbólico do filme.
A escola é, em princípio, o lugar onde se aprende a ver o mundo. É o espaço da formação, da disciplina, da linguagem, da memória coletiva, da adaptação à vida social. O hospital, por sua vez, é o espaço do cuidado, da interrupção do cotidiano, da fragilidade e da reparação.
Quando um hospital funciona dentro de uma escola desativada, o filme parece unir duas ideias profundas: algo na formação adoeceu e algo na cura exige reaprender.
Essa leitura é importante porque desloca o centro da questão. Já não se trata apenas de corpos exaustos, mas de sujeitos formados por uma determinada ordem simbólica, histórica e social. Como se a própria estrutura que ensinou esses corpos a existir estivesse agora revelando seu preço.
Em outro nível, a antiga escola também carrega algo da infância: primeiros vínculos, primeiras regras, primeiras experiências de pertencimento ou exclusão, de adaptação ou estranhamento. O fato de a cura acontecer nesse espaço faz pensar que todo cuidado verdadeiro toca também uma arquitetura antiga da psique. O presente não se separa facilmente das suas camadas anteriores.
A antiga escola, então, pode ser lida como:
- lugar de formação da consciência;
- depósito de memória;
- ruína institucional;
- espaço de repetição histórica;
- cenário em que o sujeito reencontra algo primitivo em si.
Essa escolha de cenário é muito precisa. O lugar destinado a “acordar” os indivíduos para o mundo social torna-se o lugar em que os corpos adormecem. A inversão é notável. Talvez o filme esteja sugerindo que aquilo que chamamos de vigília social nem sempre corresponde a um verdadeiro despertar.
Os soldados adormecidos e a imagem de um país cansado
Os soldados com a doença do sono são uma das imagens mais fortes do filme. Eles são indivíduos, claro. Mas também parecem condensar algo maior. A própria sinopse do filme já situa essa estranha condição como centro da narrativa, dentro de uma clínica provisória num antigo colégio, em um espaço carregado de memória.
Em entrevistas, Apichatpong ligou o sono e o sonho à ideia de fuga e confusão coletiva diante do futuro, num contexto em que a presença militar pesa sobre a vida social tailandesa. O próprio diretor falou em sentir que as pessoas, em certos momentos, precisavam “escapar”, dormir, sonhar outra realidade.
Essa camada política não esgota o filme, mas ajuda a compreendê-lo. Os soldados podem ser vistos como imagem de um país:
- fatigado;
- submetido a forças invisíveis;
- preso a histórias antigas;
- suspenso entre obediência, sonho e entorpecimento.
Mas o grande poder do filme é que essa imagem política também se torna imagem psíquica. Quantas partes de nós vivem assim? Adormecidas. Drenadas por histórias antigas. Presas a lealdades invisíveis. Habitadas por conteúdos que não se deixam integrar plenamente à consciência.
Uma leitura junguiana: sono, sombra e inconsciente coletivo
Numa chave junguiana, Cemitério do Esplendor é um filme riquíssimo.
Não no sentido de que ele “ilustre Jung” de modo didático, mas no sentido de que sua estrutura simbólica se aproxima muito de uma visão de mundo em que a psique é maior do que o ego e em que o real é atravessado por camadas invisíveis.
1. O sono como descida ao inconsciente
O sono dos soldados pode ser visto como uma imagem de descida. O ego, associado à vigília, à produtividade e ao funcionamento adaptado, perde sua soberania. O sujeito é levado para baixo, para uma zona onde não domina o que vê nem o que vive.
Junguianamente, isso lembra o encontro com o inconsciente: uma esfera que não pode ser governada pela vontade e que frequentemente emerge quando a consciência já não sustenta sozinha a vida.
Aqui, o sono não é apenas colapso. É também acesso.
2. O hospital como imagem da psique
Se lermos o hospital como espaço psíquico, ele deixa de ser apenas um lugar físico. Ele se torna imagem de uma interioridade em tratamento. Há partes acordadas, partes dormindo, vozes que circulam, tentativas de cura, presenças mediadoras, zonas mal compreendidas.
É quase como se o filme transformasse a psique em arquitetura.
3. A antiga escola como formação do ego
A antiga escola, dentro dessa leitura, pode simbolizar o lugar onde o ego foi moldado: normas, linguagem, adaptação, expectativas coletivas. Transformá-la em hospital sugere que a própria estrutura da persona — isto é, do eu adaptado ao mundo — adoeceu ou já não basta.
Nesse sentido, o filme não perguntaria apenas “como curar?”, mas também:
o que em nós foi aprendido à custa de uma perda de vitalidade?
o que precisa ser desaprendido para que algo mais vivo reapareça?
4. Keng e a função mediadora
A personagem Keng, com sua capacidade de mediação entre os mundos, pode ser pensada simbolicamente como figura psicopompa: aquela que ajuda na travessia entre dimensões, entre consciência e inconsciência, entre o visível e o invisível.
No imaginário junguiano, figuras assim aparecem quando a psique precisa de mediação para se aproximar do que foi recalcado, esquecido ou enterrado.
5. O subterrâneo e o inconsciente coletivo
A ideia de que sob aquele espaço agem forças antigas, reis e memórias enterradas, aproxima o filme de algo que Jung chamaria de camada arcaica da psique. O presente não está sozinho. Ele é atravessado por sedimentos. Há uma história coletiva que continua exigindo energia.
Por isso o filme parece tão profundamente ligado ao inconsciente coletivo: não porque apresente arquétipos de forma ilustrativa, mas porque faz sentir que a vida atual repousa sobre camadas ancestrais que ainda operam.
Jenjira e a ética da presença
No centro de tudo isso está Jenjira. E isso é muito importante.
Em outro diretor, um material assim poderia se tornar excessivamente abstrato ou hermético. Mas Jenjira ancora o filme no humano. Ela não é uma heroína clássica, nem alguém que decifra o mistério. Ela permanece. Cuida. Acompanha. Escuta. Observa.
Esse gesto é decisivo.
Num filme atravessado por reinos subterrâneos, sonhos, política, memória histórica e forças invisíveis, o núcleo ético não está no controle. Está na presença. O cuidado aparece como forma de relação com o enigma.
Isso dá ao filme uma qualidade rara: ele não transforma o mistério em espetáculo. Ele o aproxima da vida comum.
Tarkovsky, Ozu e o tempo contemplativo
Comparar Apichatpong com Tarkovsky e Ozu pode ajudar a iluminar a experiência temporal de Cemitério do Esplendor.
É claro que são cineastas muito diferentes. Mas os três, cada um à sua maneira, recusam a aceleração como norma.
Com Tarkovsky
Em Tarkovsky, o tempo frequentemente assume densidade espiritual. A imagem não quer apenas mostrar algo; quer preservar uma duração interior. A paisagem, a memória, a água, a ruína, o sonho: tudo parece carregar uma espessura metafísica.
Em Apichatpong, há algo semelhante nessa recusa de um real puramente objetivo. O visível não se fecha em si. Há sempre uma porosidade entre mundo e mistério, entre matéria e memória, entre cotidiano e transcendência.
A diferença é que Tarkovsky tende a uma gravidade mais trágica e vertical, enquanto Apichatpong trabalha com mais leveza, mais humor e uma estranheza mais mansa. Onde Tarkovsky frequentemente pesa, Apichatpong flutua.
Com Ozu
Com Ozu, a afinidade está menos na dimensão espiritual explícita e mais na ética do ritmo. Em Ozu, o cotidiano não é um intervalo entre acontecimentos importantes. Ele é o próprio tecido da experiência humana. O tempo da vida aparece nos gestos pequenos, nas pausas, nos interiores, nas transições aparentemente mínimas.
Apichatpong compartilha essa confiança na delicadeza. Também nele o pequeno não é menor. O que parece banal pode ser revelador. O filme não corre atrás de clímax porque acredita que a verdade pode surgir numa conversa simples, numa permanência, numa espera.
O tempo contemplativo
Talvez o ponto de encontro entre esses cineastas esteja aqui: o tempo contemplativo.
Tempo contemplativo não é lentidão vazia. É um modo de filmar que permite que algo amadureça no olhar do espectador. Não impõe consumo rápido da imagem. Não força interpretação imediata. Não organiza tudo para a eficiência narrativa.
Em Cemitério do Esplendor, esse tempo contemplativo produz um efeito decisivo: ele nos devolve a capacidade de permanecer diante do que não se resolve depressa.
E isso, hoje, é quase uma experiência de cura.
Um cemitério do quê?
O título do filme é belíssimo: Cemitério do Esplendor.
Há aí uma contradição poderosa. O esplendor costuma ser associado à luz, à vitalidade, à glória. O cemitério, ao enterramento, à morte, ao que já passou. O título sugere que algo luminoso foi soterrado — mas não desapareceu por completo.
Talvez seja disso que o filme fale:
- de um passado que continua agindo;
- de energias enterradas que ainda drenam o presente;
- de uma beleza que persiste mesmo dentro do esgotamento;
- de um mundo em que o visível repousa sobre ruínas vivas.
Por que esse filme pode trazer paz?
A paz que Cemitério do Esplendor produz não é paz de negação. O filme não ignora cansaço, doença, estranhamento, dominação ou morte. A paz vem de outro lugar: da recusa em violentar o mistério com respostas rápidas.
Apichatpong não nos obriga a entender tudo. Ele nos convida a habitar.
Isso muda muito. Porque parte da angústia contemporânea não vem apenas do excesso de dor, mas também da exigência de que tudo se torne imediatamente legível, útil, explicável. Cemitério do Esplendor suspende essa exigência. E, nessa suspensão, devolve ao espectador alguma forma de respiração.
Considerações finais
Cemitério do Esplendor é um filme sobre soldados adormecidos, mas também sobre sociedades cansadas, memórias enterradas, instituições em ruína, camadas invisíveis da psique e a delicadeza de permanecer ao lado do que não compreendemos inteiramente.
O hospital é hospital, mas também escola, templo, sonho, ruína histórica e imagem do inconsciente coletivo.
A antiga escola transforma a leitura do filme porque introduz a ideia de que a cura não se separa da formação: algo na maneira como aprendemos a existir talvez esteja ferido. E a estranha doença do sono, então, deixa de ser apenas uma condição dos personagens. Ela se torna uma pergunta sobre nós mesmos.
Talvez por isso o filme permaneça tanto tempo depois da sessão. Porque ele não quer apenas ser visto. Quer alterar, ainda que por um instante, a velocidade com que atravessamos o mundo.

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