Há algo de profundamente transformador em experiências que nos colocam frente a frente com a natureza em sua forma mais crua. Tamara Klink, navegadora solitária que passou oito meses no gelo, relata em sua entrevista como essa vivência moldou sua percepção do mundo, de si mesma e de sua conexão com o que a rodeia. Essas reflexões dialogam diretamente com as ideias apresentadas por Verena Kast no livro “A Alma Precisa de Tempo”, especialmente no que diz respeito à relação entre os sentidos, a alma e a experiência de sentido.
Verena Kast nos lembra que somos seres sensoriais, percebendo o mundo por meio da visão, do toque, do som e do cheiro. A beleza que experimentamos por esses sentidos nos cativa, nos conecta com a natureza, com outras pessoas e até com a vida como um todo. Tamara descreve um momento em que, após meses de isolamento, sentou-se em uma cadeira sobre o gelo, fechou os olhos e apenas sentiu o calor do sol em seu rosto. Para ela, aquela era a definição de paz. Ali, todos os desafios, as dores e alegrias da vida confluíram em uma única percepção: a vida não precisava ser grandiosa, mas, sim, vivida com os seus sentidos. Essa experiência traduz o que Kast chama de “vivenciar a vida como cheia de sentido”, onde o simples ato de sentir conecta-nos à essência da existência e ao cosmos.
Kast enfatiza que “experiências sensoriais são muito próximas de experiências de sentido.” Na solidão do gelo, Tamara vivenciou isso de forma intensa. Cada amanhecer solitário era uma oportunidade para sentir a vida em sua plenitude. Ela percebeu que a alma não apenas precisa de tempo, mas também de espaço – espaço para explorar, para silenciar e, acima de tudo, para experimentar. O tempo, como Verena aponta, é crucial: apressar-se em uma experiência faz com que ela perca sua profundidade, como uma refeição apressada que nos priva do sabor. Para Tamara, o ritmo imposto pelas condições climáticas e pela própria dinâmica do mar obrigava-a a estar presente. Não havia como acelerar o vento ou o derretimento do gelo; a vida acontecia no instante, e o aprendizado era estar com ela, não contra ela.
Outro ponto essencial que Tamara aborda é a liberdade de simplesmente ser. Ao longo de sua jornada, ela percebeu que estava se libertando de algo que Verena Kast critica como a “desapropriação dos sentidos.” Em nossa rotina acelerada e culturalmente saturada, muitas vezes sacrificamos nossos sentidos para nos ajustarmos às expectativas externas. Tamara, por outro lado, encontrou na solidão o espaço para abandonar essas pressões. Ela descreve como deixou de se preocupar com sua aparência, com como seria percebida pelos outros, e passou a valorizar seu corpo não como um objeto de julgamento, mas como uma ferramenta para viver, explorar e sentir. A experiência sensorial de vestir roupas confortáveis, de caminhar sem pressa ou de rir ao escorregar por uma montanha tornou-se um símbolo de uma existência mais autêntica, menos aprisionada pela necessidade de agradar.
Tamara também reflete sobre a pluralidade do prazer – algo que Kast sugere como uma característica fundamental da existência sensorial. Para Tamara, o prazer deixou de ser associado apenas ao corpo no sentido sexual e se expandiu para pequenas alegrias cotidianas: o calor do sol no rosto, o riso em meio à superação de uma adversidade, o sabor de uma refeição sem culpa. Ela percebeu que, na vida urbana, muitos desses prazeres simples são ignorados ou até reprimidos por normas sociais e culturais. A frase de Kast, “a vida acontece onde estamos, não onde não estamos,” ressoa fortemente aqui, pois Tamara descobriu que o verdadeiro prazer estava em viver o momento plenamente, sem distrações.
No entanto, sua jornada no gelo também revelou a importância das conexões humanas. Embora a solidão tenha sido essencial para seu autoconhecimento, Tamara entendeu que ela era apenas uma fase. Quando a primavera chegou e os animais começaram a formar grupos, ela reconheceu que a vida fazia sentido dentro do contexto da convivência com os outros. Verena Kast escreve sobre como os sentidos nos conectam tanto com o mundo interno quanto com o externo, e Tamara vivenciou isso ao perceber que sua existência era mais rica quando compartilhada. A solidão lhe ensinou a valorizar as relações, e o retorno à sociedade trouxe um novo significado à sua jornada. Esse entendimento é um lembrete de que a experiência sensorial plena, embora profundamente individual, ganha sentido em comunidade, nas relações que cultivamos.
Por fim, Tamara Klink e Verena Kast nos mostram que a vida não está nas grandes realizações, mas no simples ato de sentir, de estar presente e de vivenciar o mundo com todos os sentidos. É na quietude, na conexão sensorial e no prazer de ser humano que encontramos o sentido mais profundo da existência. Tanto Kast quanto Tamara nos convidam a desacelerar, a nos reconectar com os sentidos e a permitir que a vida nos toque em sua beleza simples e transformadora. É no silêncio, no toque do sol, no prazer de ser humano que encontramos a verdadeira liberdade. E, como Tamara tão bem conclui, a liberdade vem de superar os limites – sejam eles impostos pela sociedade ou por nós mesmos – para simplesmente viver.
Escute o podcast completo.
Referências:
A Alma Precisa de Tempo, Verena Kast
Entrevista à Revista https://revistatrip.uol.com.br/trip-fm/o-que-tamara-klink-aprendeu-em-8-meses-sozinha-no-gelo
Dra. Luana Schuarts
CRM 38301 | RQE 28408
Psiquiatra Curitiba – Psiquiatra Online – Terapeuta Junguiana
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