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Título

O Impacto da Cultura da Dopamina na Psicologia e o Olhar Junguiano sobre a Busca pelo Prazer

Autora
Dra. Luana Schuarts

Boa leitura.

O Impacto da Cultura da Dopamina na Psicologia e o Olhar Junguiano sobre a Busca pelo Prazer

Vivemos na era da superestimulação. Nunca antes tivemos acesso tão imediato a fontes de prazer: redes sociais, jogos, compras online, pornografia, comida ultraprocessada, e até mesmo pequenas notificações no celular que nos recompensam com picos de dopamina. Em Nação Dopamina, a Dra. Anna Lembke alerta para os perigos dessa busca incessante pelo prazer e discute como a neuroquímica do nosso cérebro nos torna vulneráveis a ciclos de compulsão e insatisfação.

O que é a Esteira (ou Adaptação) Hedônica?

A esteira hedônica é um fenômeno psicológico que descreve a tendência das pessoas a retornarem a um nível relativamente constante de felicidade após experiências positivas ou negativas. A adaptação hedônica é uma estratégia evolutiva que permite aos seres humanos lidarem com mudanças constantes, ajudando a suavizar tanto momentos de euforia quanto períodos de tristeza. Embora grandes eventos possam influenciar temporariamente nosso estado emocional, com o tempo, retornamos ao nosso ponto base de felicidade.

Pesquisas indicam que até 50% da nossa capacidade de felicidade pode ser influenciada por fatores genéticos, enquanto o restante está sujeito às circunstâncias e às nossas escolhas. No entanto, algumas experiências de vida, como o casamento ou a perda de um ente querido, podem gerar mudanças emocionais mais permanentes. Além disso, a forma como atribuímos valor sentimental a certos eventos pode prolongar os sentimentos de felicidade, tornando-os mais duradouros.

A Dopamina e a Esteira Hedônica

A dopamina é um neurotransmissor essencial para a motivação e o prazer, mas seu excesso pode gerar um paradoxo: quanto mais estímulos prazerosos buscamos, menos satisfação encontramos. Esse fenômeno é explicado pela adaptação hedônica, ou seja, a tendência do cérebro a se acostumar rapidamente com novos níveis de prazer e, consequentemente, exigir doses cada vez maiores para obter o mesmo efeito.

Como a Dra. Lembke aponta, essa busca desenfreada pode resultar em um desequilíbrio entre prazer e dor, levando ao sofrimento psicológico e a padrões de dependência. Em uma sociedade obcecada pela gratificação instantânea, somos condicionados a evitar o desconforto a qualquer custo, sem perceber que ele é essencial para a autorregulação emocional e o crescimento psicológico.

O Paradoxo de Easterlin: Dinheiro e Felicidade

O economista Richard Easterlin, em seu estudo pioneiro, observou que, dentro de um país, indivíduos com rendas mais altas tendem a relatar níveis maiores de felicidade. No entanto, ao comparar diferentes países, notou que nações mais ricas não são necessariamente mais felizes que nações mais pobres. Além disso, ao longo do tempo, mesmo com o aumento do PIB per capita, os níveis médios de felicidade permanecem estáveis. Esse fenômeno ficou conhecido como o Paradoxo de Easterlin.

Easterlin sugeriu que a adaptação hedônica e a comparação social desempenham papéis cruciais nesse paradoxo. As pessoas rapidamente se acostumam a um padrão de vida mais elevado e passam a desejar mais, enquanto comparam sua situação com a dos outros, o que pode levar a uma constante sensação de insatisfação.

A Perspectiva Junguiana: O Prazer Como Sombra

Carl Jung nos ensinou que toda luz projeta uma sombra. Em termos psicológicos, a obsessão pela dopamina pode ser vista como uma tentativa inconsciente de reprimir aspectos mais profundos da psique. O desejo compulsivo pelo prazer pode ser uma fuga do vazio existencial, da angústia ou do enfrentamento de conteúdos reprimidos do inconsciente.

A individuação, conceito central na psicologia junguiana, envolve a integração de todos os aspectos do self, incluindo aqueles que evitamos encarar. Se nos entregamos apenas ao que é fácil e prazeroso, negligenciamos o necessário enfrentamento das nossas dores internas. A verdadeira transformação ocorre quando conseguimos olhar para a sombra, reconhecer nossas motivações inconscientes e desenvolver uma relação mais equilibrada com o prazer e o sofrimento.

Sofrimento Voluntário e a Redescoberta do Significado

Diferentemente do que a sociedade contemporânea prega, evitar constantemente o sofrimento pode nos tornar mais frágeis emocionalmente. Tanto a neurociência quanto a psicologia analítica sugerem que períodos de abstinência, desafios e enfrentamento da dor são fundamentais para o amadurecimento psíquico.

A proposta de Nação Dopamina de praticar a “desintoxicação da dopamina” vai ao encontro da ideia junguiana de que o ser humano precisa passar por experiências de transformação e ressignificação do sofrimento. Encontramos sentido não na busca incansável por prazer, mas na capacidade de equilibrá-lo com propósito e autoconhecimento.

Maneiras de Limitar os Efeitos da Adaptação Hedônica

Embora não possamos controlar todos os fatores que influenciam nossa felicidade, pesquisas indicam que cerca de 40% do nosso bem-estar pode ser moldado por escolhas e comportamentos específicos. Aqui estão algumas estratégias para reduzir os efeitos da adaptação hedônica e aumentar a sensação de felicidade a longo prazo:

  • Praticar a atenção plena: A meditação e a respiração consciente ajudam a focar no presente, reduzindo a ansiedade e aumentando a apreciação pelos pequenos momentos da vida.
  • Desenvolvimento pessoal e busca por significado: Definir objetivos, imaginar um futuro positivo e engajar-se em atividades que promovem um estado de fluxo (como esportes ou arte) podem criar uma sensação mais duradoura de satisfação.
  • Expressar gratidão: Registrar momentos positivos e agradecer por conquistas e experiências passadas pode prolongar os sentimentos de felicidade e evitar a insatisfação contínua.
  • Investir em relacionamentos: Relações interpessoais de qualidade são um dos maiores preditores de felicidade sustentável. Construir conexões profundas com amigos e familiares fortalece o bem-estar emocional.
  • Engajar-se em atos de altruísmo: Ajudar os outros e realizar atos de generosidade aumenta a sensação de propósito e gera uma felicidade mais autêntica e duradoura.
  • Permitir pequenos prazeres: Embora a busca excessiva por prazer possa levar à insatisfação, pequenos momentos de indulgência – como saborear um sorvete ou ouvir sua música favorita – também fazem parte de uma vida equilibrada.

Essas abordagens podem ajudar a interromper o ciclo da esteira hedônica, promovendo um bem-estar mais estável e significativo.

Conclusão

A cultura contemporânea da dopamina nos empurra para uma corrida sem fim em busca de estímulos, reforçando o ciclo de prazer e frustração. No entanto, ao adotarmos uma postura mais consciente, podemos sair dessa esteira hedônica e encontrar um estado de satisfação mais genuíno. Tanto a ciência quanto a psicologia junguiana nos ensinam que é no equilíbrio entre prazer e dor, entre luz e sombra, que encontramos o verdadeiro caminho para o bem-estar.


Referências Bibliográficas

  • Lembke, A. (2021). Nação Dopamina: Encontre o equilíbrio na era do excesso. HarperCollins.
  • Jung, C. G. (1964). O Homem e seus Símbolos. Harper & Row.
  • Kahneman, D. (2011). Rápido e Devagar: Duas formas de pensar. Objetiva.
  • Easterlin, R. A. (2001). “Explaining Happiness.” Proceedings of the National Academy of Sciences, 100(19), 11176–11183.

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