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Título

The Hypnosis (2024) – Uma Falsa Narrativa ou Uma Armadilha Narcisista?

Autora
Dra. Luana Schuarts

Boa leitura.

Quando comecei a assistir The Hypnosis, confesso que senti uma certa decepção. Parecia um filme bobo, sem sentido, uma crítica batida ao mundo das startups – um tema já tão explorado e, muitas vezes, de maneira superficial. Mas, ao longo da narrativa, algo foi se transformando. O que inicialmente parecia um comentário genérico sobre o empreendedorismo moderno e suas ilusões, no final se tornou algo muito mais profundo, quase sufocante.

Desde o início, Vera e André apresentam seu projeto para investidores, mas a maneira como Vera se comporta sugere que ela está apenas seguindo um roteiro. Ela não demonstra uma conexão real com a ideia, apenas desempenha um papel. Isso levanta a questão: essa startup realmente surgiu de uma necessidade dela ou foi uma narrativa que ela aceitou sem questionar? Essa falta de autocrítica inicial é um sinal de que ela não tem controle sobre sua própria história, apenas reproduz um discurso esperado.

Quando Vera se submete à hipnoterapia, há uma mudança sutil, mas significativa. Ela começa a agir de forma mais espontânea, sem a necessidade de atender às expectativas externas. No começo o comportamento de Vera agrada seus interlocutores, parecendo engraçado, desinibido e criativo; mas após algum tempo suas atitudes passam a ser constrangedoras e até perturbadoras, sem passar pelo filtro do bom senso.  Fica claro que sua postura, de início libertadora, na realidade não a liberta – pelo contrário, a desestabiliza. A hipnose funciona como um gatilho para desmascarar a persona que ela sustentava até então, mas, sem um novo roteiro para seguir, ela se perde completamente.

A protagonista, Vera, parece estar diante da oportunidade de ser finalmente quem ela é. Mas essa liberdade, ao invés de trazer alívio, a paralisa. Quando se vê sem a narrativa estruturada que sempre a guiou – a startup, o discurso ensaiado, a expectativa de sucesso – ela fica perdida. E esse vazio é brutal. Como alguém que tem tudo, que tem os recursos para fazer o que quiser, acaba em um bar, num trabalho que parece um retrocesso? Loucura, né? Mas talvez não. Talvez essa seja apenas mais uma forma de sabotagem, um ciclo inconsciente de autodestruição. Afinal, como poderia Vera perder aquela “oportunidade”? O bar representa um lugar seguro, onde não há expectativas e onde ela pode se esconder do dilema de ter que se reinventar.

E então vem a grande pergunta: de quem foi essa narrativa? Foi realmente dela? Ou foi imposta por alguém, uma herança que ela nunca questionou?

Para mim, o filme não é sobre startups. Esse é apenas o palco, um contexto grande demais para Vera conseguir administrar enquanto luta para se libertar de algo muito mais profundo: a influência da mãe. A cada cena, há um eco de uma presença que nunca desaparece, de uma última palavra que sempre pertence a outra pessoa. E quando finalmente Vera se vê sem esse roteiro imposto, ela não consegue encontrar um novo.


O Narcisismo Materno e a Submissão de Vera

Se havia alguma dúvida sobre a dinâmica narcisista entre Vera e sua mãe, o final do filme a destrói por completo. No fracasso épico da protagonista, ela entra em um carrão e volta para onde? Para casa? Sim, mas não para a SUA casa. Ela volta para a casa da mãe. Como uma criança retornando ao ponto de origem, derrotada, sem identidade própria.

A cena é construída de forma brilhante: a mãe aparece na porta, como um muro, um obstáculo intransponível. Nesse momento, o espectador ainda não sabe que aquela mulher é a mãe de Vera. Parece apenas que chegaram em um momento inadequado, pois ela diz estar ocupada jantando com amigos. Mas então, um detalhe sutil e poderoso acontece: Vera se encolhe, se coloca em um lugar de submissa e diz que não quer incomodar. E é só nesse momento que a mãe, satisfeita, se afasta da porta e convida Vera para entrar.

A partir daí, o jogo de controle fica ainda mais claro. Vera não se senta à mesa como uma adulta independente, mas ao lado da mãe, como uma criança que precisa de proteção. Seu namorado, por outro lado, se senta do outro lado da mesa – simbolizando um distanciamento, como se ele estivesse começando a perceber o que realmente acontece naquela casa.


A Infantilização de Vera

O momento que expõe completamente a dinâmica narcísica ocorre quando a mãe, ao servir bebida, faz uma pergunta aparentemente banal:

“Você quer mais vinho ou prefere um copo de leite?”

Aqui, há um jogo psicológico evidente: a mãe reduz Vera a um estado infantilizado, como se estivesse oferecendo uma mamadeira para um bebê, reforçando a mensagem de que sua filha não tem autonomia, não é madura o suficiente para estar ali como um adulto. Mas Vera, mesmo tendo demonstrado ao longo do filme que gosta muito de leite, aceita o vinho.

Ela faz isso por escolha própria? Ou porque sabe que a única forma de ser aceita naquele espaço é jogar o jogo da mãe e fingir ser adulta nos termos dela? Esse é o dilema de quem cresce sob influência narcisista: mesmo quando tem vontades próprias, aprende a suprimi-las para agradar a figura de autoridade.

Enquanto isso, as pessoas na mesa perguntam sobre a startup, mas Vera não responde. Ela fica de cabeça baixa, enquanto sua mãe toma a palavra e fala no lugar dela. A startup, que supostamente era de Vera, agora é narrada pela mãe. O namorado, antes tão participativo, percebe a distorção e se cala. Nada ali pertence a Vera – nem sua história, nem sua narrativa, nem sua própria voz.


O Colapso e a Rebelião Animal

Então, o momento mais bizarro do filme acontece. O namorado de Vera vai ao banheiro e, ao voltar, começa a imitar um cachorro. Ele late alto, cheira as pessoas, faz caras de nojo e, num gesto extremo, urina no pé de um móvel.

Essa cena absurda e desconfortável pode ser interpretada de várias formas, mas, para mim, é uma metáfora da ruptura. Ele percebe que Vera está completamente dominada pela mãe, que está prestes a ser devorada por aquela casa, por aquela dinâmica familiar tóxica. Ele age como um animal, um ser irracional e selvagem, porque é a única forma de quebrar a lógica manipuladora que impera naquele ambiente.

E funciona.

Vera finalmente reage. Ela vai até ele, o trata como um cachorro (“Você quer sair um pouco?”) e o leva para fora. Mas, no fundo, não é ele que precisa ser libertado. É ela. E, juntos, eles fogem.

Eles sobem uma colina, correndo. Pela primeira vez, Vera parece livre. O filme poderia acabar aqui, num momento de libertação, mas a realidade é mais cruel.


A Última Palavra Ainda Não é de Vera

A alegria dura pouco. Enquanto eles descem uma ladeira, a câmera capta o exato momento em que Vera para. Eles trocam um olhar triste. Ela não pode seguir. Ela não vai seguir.

O filme encerra nesse instante. Não há um desfecho feliz, porque Hypnose não é um filme sobre superação, e sim sobre um ciclo de controle que parece impossível de romper. Vera teve um vislumbre de liberdade, mas, no fundo, já estava programada para voltar. A mãe ainda tem a última palavra.

A pergunta que fica é: quanto tempo levará até que Vera encontre outra “narrativa falsa” para se prender?


Conclusão

Hypnose é um filme sobre startups? Não. É um filme sobre narcisismo. Não o narcisismo chamativo, performático, do tipo que vemos nas redes sociais, mas o narcisismo invisível, aquele que se infiltra nas relações mais íntimas e aprisiona as pessoas sem que percebam.

Vera não perdeu uma startup. Ela perdeu a si mesma. E, no final, quando teve a chance de escapar, hesitou.

Porque quem cresce sem uma identidade própria não sabe existir sem um mestre.

E a mãe dela sempre estará esperando na porta.

THE HYPNOSIS | Official Trailer | Now Streaming on MUBI

Ficha Técnica

Hypnosen (2024) – Noruega, Suécia
Direção: Ernst de Geer
Roteiro: Ernst de Geer, Mads Stegger
Elenco: Herbert Nordrum, Asta Kamma August, Julien Combes, David Fukamachi Regnfors, Andrea Edwards

Dra. Luana Schuarts

CRM 38301 | RQE 28408

Psiquiatra Curitiba – Psiquiatra Online – Terapeuta Junguiana


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